Deram uma rasteira na capoeira

rasteira-capoeira1Salve, camaradas!

Sou colunista de um Jornal local, o Camaçari Agora. Hoje aproveitei meu espaço para protestar contra o abandono do monumento em homenagem ao Saudoso Mestre Bimba, o Rei da Regional… Segue a matéria:

DERAM UMA RASTEIRA NA CAPOEIRA

E Mestre Bimba, triste com a falta de reconhecimento por parte das autoridades baianas, partiu para Goiânia. Era o ano de 1973, mas, infelizmente, poderia ser exatamente hoje, 01 de setembro de 2015.

Manoel dos Reis Machado é considerado um dos últimos heróis negros da Bahia. No final da década de 1920, criou um estilo de Capoeira que proporcionou catapultar a Luta/Arte genuinamente brasileira, para mais de 130 países ao redor do globo terrestre. Sua Capoeira Regional, ou Luta Regional Baiana (o Mestre não poderia registrar como “Capoeira”, visto que esta ainda figurava no Código Penal Brasileiro, em vigor), tornou-se um divisor de águas na história da luta de resistência, germinada nas senzalas da Bahia. Sua sagacidade o tornara um novo rei nacional, o Rei da Regional.

Antes de Seu Bimba, a Capoeira não tinha um formato, uma didática de ensino, fundamentos, ritualidade. Seu ensino e prática era executada na beira do cais, nas feiras livres, nas festas de largo, nas ruas, nas quebradas de Salvador e cidades do Recôncavo. Essa prática já estava bastante folclorizada, e muito da sua objetividade, necessária na luta de libertação escrava, havia se perdido ao longo do tempo e por conta da, mais uma vez, necessidade de sobrevivência dos seus praticantes, que apresentavam algo teatral, para turista ver. O Bimba, bamba que era, puxou para si a responsabilidade de alterar o curso dessa história. Utilizou a base da Capoeira que ele já praticava, desde os seus 12 anos de idade, uniu-a ao batuque (antiga luta praticada no Recôncavo), introduziu alguns golpes de outras vertentes marciais, deu formato e método de ensino, com a sua Sequência, trouxe a Capoeira para o ambiente fechado, deu solenidade à prática, com alteração na charanga, criação de toques, institucionalização de cerimônias e cursos específicos, tais como: teste de admissão, batizado, formatura, especialização, emboscada etc. Também introduziu um modelo de reconhecimento e diplomação dos seus alunos. Enfim, realmente foi uma revolução para a sua época!

Hoje é sabido que a Capoeira é patrimônio imaterial da humanidade. Ela é o maior símbolo de brasilidade, propagadora da nossa língua, costumes, cultura e história. Dentro desse contexto, o Dr. Manoel Machado, sem dúvida nenhuma, teve um papel fundamental. Essa história tem um início, e começa com a sua Luta Regional.

Como em terra de ferreiro, o espeto é de pau, a mesma Bahia, através de seus governantes, que outrora o levou a partir para Goiás, buscando melhores condições de vida e reconhecimento, 41 anos após sua morte, pouco faz para que, ao menos sua memória e legado, sejam preservados e perpetuados.

Mestre Bimba é hoje uma alameda no antigo Iguatemi, uma Rua no Nordeste de Amaralina, um título de doutor honoris causa (conferido pela UFBA), foi um vale transporte, é uma medalha Thomé de Souza e… é um pequeno obelisco numa pracinha na divisa do Rio Vermelho, com Amaralina.

E é sobre essa pracinha, que todos os olhares e indignações de capoeiristas do mundo inteiro se voltaram esta semana. A praça, por si só, já apresentava um descontentamento em todos. Algo acanhado, mal cuidado, com um obelisco de pouco mais de 3 metros de altura, tendo uma placa em bronze contendo o rosto do saudoso Mestre. Pouco, muito pouco, para a imensidão das contribuições que esse herói negro ofereceu ao nosso país.

Esse pouco ficou minúsculo… O obelisco hoje encontra-se desfigurado. Levaram o rosto do Mestre Bimba! Roubaram sua figura! Violentaram sua memória! Deram uma rasteira em toda a Capoeira mundial. Cobranças estão sendo feitas aos montes nas redes sociais e lá mesmo, nos órgãos “competentes”, mas sem retorno algum.

Sinto-me no dever, também como praticante dessa arte que tanto me encanta, de utilizar a minha coluna, para também protestar e clamar para que a Prefeitura Municipal de Salvador e o Governo do Estado da Bahia, tomem providências urgentes, não apenas para a recolocação da placa, mas, mais que isso, repensem um novo formato, uma nova estrutura, uma requalificação da Praça. Mestre Bimba merece muito mais!

“O capoeira que é bom, não cai, mas se um dia ele cai, cai bem”… Cai na negativa, gira no rolê, sai de aú e se levanta novamente, pronto para dar volta ao mundo…

Salve,

Caio Marcel (Professor Caio Crente) admcaio@gmail.com é administrador de empresas e professor de Capoeira Regional. É presidente da Associação Sociocultural de Capoeira Regional Bimbaê, que desenvolve ações socioculturais nos bairros do Parque das Mangabas, Gleba B, Ponto Certo, Piaçaveira e Machadinho, em Camaçari, além de Dias D´Ávila e Irará/BA, Paraná, Espírito Santo, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Córdoba/Argentina.

http://www.camacariagora.com.br/colunista.php?cod_colunista=17
Salve, camaradas!

Sou colunista de um Jornal local, o Camaçari Agora. Hoje aproveitei meu espaço para protestar contra o abandono do monumento em homenagem ao Saudoso Mestre Bimba, o Rei da Regional… Segue a matéria:

DERAM UMA RASTEIRA NA CAPOEIRA

E Mestre Bimba, triste com a falta de reconhecimento por parte das autoridades baianas, partiu para Goiânia. Era o ano de 1973, mas, infelizmente, poderia ser exatamente hoje, 01 de setembro de 2015.

Manoel dos Reis Machado é considerado um dos últimos heróis negros da Bahia. No final da década de 1920, criou um estilo de Capoeira que proporcionou catapultar a Luta/Arte genuinamente brasileira, para mais de 130 países ao redor do globo terrestre. Sua Capoeira Regional, ou Luta Regional Baiana (o Mestre não poderia registrar como “Capoeira”, visto que esta ainda figurava no Código Penal Brasileiro, em vigor), tornou-se um divisor de águas na história da luta de resistência, germinada nas senzalas da Bahia. Sua sagacidade o tornara um novo rei nacional, o Rei da Regional.

Antes de Seu Bimba, a Capoeira não tinha um formato, uma didática de ensino, fundamentos, ritualidade. Seu ensino e prática era executada na beira do cais, nas feiras livres, nas festas de largo, nas ruas, nas quebradas de Salvador e cidades do Recôncavo. Essa prática já estava bastante folclorizada, e muito da sua objetividade, necessária na luta de libertação escrava, havia se perdido ao longo do tempo e por conta da, mais uma vez, necessidade de sobrevivência dos seus praticantes, que apresentavam algo teatral, para turista ver. O Bimba, bamba que era, puxou para si a responsabilidade de alterar o curso dessa história. Utilizou a base da Capoeira que ele já praticava, desde os seus 12 anos de idade, uniu-a ao batuque (antiga luta praticada no Recôncavo), introduziu alguns golpes de outras vertentes marciais, deu formato e método de ensino, com a sua Sequência, trouxe a Capoeira para o ambiente fechado, deu solenidade à prática, com alteração na charanga, criação de toques, institucionalização de cerimônias e cursos específicos, tais como: teste de admissão, batizado, formatura, especialização, emboscada etc. Também introduziu um modelo de reconhecimento e diplomação dos seus alunos. Enfim, realmente foi uma revolução para a sua época!

Hoje é sabido que a Capoeira é patrimônio imaterial da humanidade. Ela é o maior símbolo de brasilidade, propagadora da nossa língua, costumes, cultura e história. Dentro desse contexto, o Dr. Manoel Machado, sem dúvida nenhuma, teve um papel fundamental. Essa história tem um início, e começa com a sua Luta Regional.

Como em terra de ferreiro, o espeto é de pau, a mesma Bahia, através de seus governantes, que outrora o levou a partir para Goiás, buscando melhores condições de vida e reconhecimento, 41 anos após sua morte, pouco faz para que, ao menos sua memória e legado, sejam preservados e perpetuados.

Mestre Bimba é hoje uma alameda no antigo Iguatemi, uma Rua no Nordeste de Amaralina, um título de doutor honoris causa (conferido pela UFBA), foi um vale transporte, é uma medalha Thomé de Souza e… é um pequeno obelisco numa pracinha na divisa do Rio Vermelho, com Amaralina.

E é sobre essa pracinha, que todos os olhares e indignações de capoeiristas do mundo inteiro se voltaram esta semana. A praça, por si só, já apresentava um descontentamento em todos. Algo acanhado, mal cuidado, com um obelisco de pouco mais de 3 metros de altura, tendo uma placa em bronze contendo o rosto do saudoso Mestre. Pouco, muito pouco, para a imensidão das contribuições que esse herói negro ofereceu ao nosso país.

Esse pouco ficou minúsculo… O obelisco hoje encontra-se desfigurado. Levaram o rosto do Mestre Bimba! Roubaram sua figura! Violentaram sua memória! Deram uma rasteira em toda a Capoeira mundial. Cobranças estão sendo feitas aos montes nas redes sociais e lá mesmo, nos órgãos “competentes”, mas sem retorno algum.

Sinto-me no dever, também como praticante dessa arte que tanto me encanta, de utilizar a minha coluna, para também protestar e clamar para que a Prefeitura Municipal de Salvador e o Governo do Estado da Bahia, tomem providências urgentes, não apenas para a recolocação da placa, mas, mais que isso, repensem um novo formato, uma nova estrutura, uma requalificação da Praça. Mestre Bimba merece muito mais!

“O capoeira que é bom, não cai, mas se um dia ele cai, cai bem”… Cai na negativa, gira no rolê, sai de aú e se levanta novamente, pronto para dar volta ao mundo…

Salve,

Caio Marcel (Professor Caio Crente) admcaio@gmail.com é administrador de empresas e professor de Capoeira Regional. É presidente da Associação Sociocultural de Capoeira Regional Bimbaê, que desenvolve ações socioculturais nos bairros do Parque das Mangabas, Gleba B, Ponto Certo, Piaçaveira e Machadinho, em Camaçari, além de Dias D´Ávila e Irará/BA, Paraná, Espírito Santo, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Córdoba/Argentina.

http://www.camacariagora.com.br/colunista.php?cod_colunista=17

2017-03-04T00:01:11+00:00